terça-feira, 8 de setembro de 2009

Não fosse ele filho de quem é…

Nunca me agradou o seu jeito. O cabelo despenteado, o ar meio sujo com que por vezes aparece. Aquela mania de que sabe tudo, sempre melhor do que os outros. Mas adorava vê-lo no picanço, às sextas-feiras no jornal da noite, com a Manuela Moura Guedes! Isso é que era partir o côco a rir!
Por estas razoes, nunca se me deu para comprar um dos seus livros. Pura embirração minha claro está, afinal de contas, o senhor é filho de quem é. Corre-lhe no sangue a poesia da sua Mãe e o dom de, ao mexer com as palavras, mexer-nos também “cá dentro”, no nosso íntimo.
O último livro que li foi “No teu deserto”.
Curtinho. Levezinho. Mas romântico.
Gostei de tantas coisas, que poderia quase citar o livro por completo, mas escolho apenas esta:

“A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. No princípio quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
(…)
Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno…
- Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares demais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.
Anos mais tarde, já estava doente, voltei a lembrar-me dessa nossa conversa. Tinha acabado de te escrever uma carta – mais uma, talvez a terceira – que nunca te cheguei a mandar e que destruí depois. E, escrevendo, poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivesses ouvido. Cheguei quase a convencer-me de que bastava escrever-te para tu me ouvires, mesmo que nunca tenha chegado a pôr a carta no correio. (...)

- Xiu, ouve o ruído das estrelas!"

É lindo ou não é?
Miguel Sousa Tavares, é filho de Sofia de Melo Breyner Andresen, uma Mulher que muito admiro.

4 comentários:

Mãe da Tiz disse...

Também gosto muito da escrita dele... mas depois dos ataques que fez à classe docente, desceu muuuuito na minha consideração...

beijos***

Carla disse...

É deveras bonito.
O meu mais-que-tudo tb diz q 1 gesto vale + q 1000 palavras... mas eu gosto de falar e de ouvir. Nota-se, né??

Xi-coração.

Tété £ Xavier © disse...

Com esse Senhor, ou se ama ou se odeia! Não há meio-termo!

Mas os que odeiam, e um dia conhecem o seu trabalho, passam a ficar viciados ;o)

Comprei esse mas ainda não o li…

Gostei do excerto que transcreves… tocou-me muito mas vindo do MST não me admira.

Sim, sou muito viciada nele mas às custas da Manuelinha, que DETESTO, raramente vi-a o Jornal da TVI. Aliás as tv’s cá de casa não param muito nesse canal…

Beijos
Tété & Xavier

Rita disse...

Pois é bem bonito.
O M.S.Tavares tem umas opiniões sobre certos assuntos com os quais também não vou muito à bola... mas que é um primor na escrita... ninguém o pode negar :)